quarta-feira, 21 de abril de 2010

A forma é essencial para a compreensão do leitor

“Embora o ponto de partida da invenção de um romancista seja o que ele viveu, esse não é, nem pode ser, o ponto de chegada. O ponto de chegada da invenção se encontra a uma distância considerável, e algumas vezes cósmica, daquele, pois nesse processo intermediário- transpor o tema para um conjunto de palavras e uma ordem narrativa- o material autobiográfico sofre transformações, é enriquecido (às vezes empobrecido), misturado a outros elementos recordados ou inventados, e estruturado.”( 2º Par- Pg 23 “ Cartas à um jovem escritor” – Mário Vargas Llosa)
“A forma é o que permite cristalizar em um produto concreto esta ficção, e, nesse aspecto, se estiver correta a minha idéia sobre a atividade literária (tenho dúvidas, repito), o escritor goza de total liberdade e, por isso, é responsável pelo resultado.” ( 1º Par- Pg 24 “ Cartas à um jovem escritor” – Mário Vargas Llosa)

Um ótimo exemplo desse processo é o texto “ O Corvo” de Edgar Allan Poe , para transmitir um sentimento, ele pensou muito na forma de seu poema, ou seja,  na escolha das palavras, na sonoridade, para que assim, ao ler, o leitor pudesse realmente experenciar e compreender aquele sentimento. 

Para garantir a qualidade, a escrita tem que ser um movimento de dentro para fora

Nas cartas de Mário de Andrade à Fernando Sabino, Mário diz que um dos romances que Fernando escreveu estava muito ruim, ele explica que sentiu uma superficialidade no romance, diz que não tinha as marcas próprias de Fernando, fala que foi um romance escrito de fora para dentro.
Como Mário de Andrade, Mário Vargas Llosa também enfatiza a importância da autenticidade para a qualidade da escrita:
“O romancista autêntico é aquele que obedece docilmente as regras ditadas pela vida, escrevendo sobre esses temas e evitando os que não nascem intimamente da sua própria experiência e lhe afloram à consciência com caráter de necessidade. Nisso consiste a autenticidade ou sinceridade do romancista: em aceitar os próprios demônios e servi-los na medida do possível.”  ( 1º Par- Pg 28 “ Cartas à um jovem escritor” – Mário Vargas Llosa)
“Me parece muito difícil alguém se tornar um criador- um transformador da realidade- se não escrever estimulado e nutrido por aqueles fantasmas (ou demônios) que carrega dentro de si, que fizeram de nós, escritores, rebelados convictos e reconstrutores da vida nas ficções que inventamos.” ( 2º Par- Pg 28 “ Cartas à um jovem escritor” – Mário Vargas Llosa)

domingo, 4 de abril de 2010

A casa de João Ubaldo Ribeiro

Que bonito é ver a infância de João Ubaldo Ribeiro, sempre repleta de livros, uma infância que se alimentava, se divertia, se desenvolvia através de mil escritores, mil histórias, dos mais consagrados e importantes nomes da literatura. Um menino que com apenas 12 anos já havia lido centenas de títulos.

Que incrível é escutar e sentir o seu entusiasmo ao falar da literatura em sua infância, ao descrevê-la como uma paixão, um divertimento, a melhor memória que guarda deste período, uma busca espontânea e pessoal, um hábito simples e natural, um envolvimento íntimo e intenso.

Fico imaginando como a literatura deve ter se arraigado em seu interior e ter transformado sua vida, e vejo que isso foi possível porque cresceu em um ambiente em que a valorização deste hábito era explícita, todos praticavam, todos conversavam sobre isso, todos amavam os livros.

Penso então, como a vida de tantas pessoas, como nosso país, poderia ser diferente se tivesse um pouco da consciência sobre a literatura que tinha na casa de João Ubaldo Ribeiro.